06/07/2010
O médico é importante para a qualidade da assistência hospitalar ou para a acreditação hospitalar?
A acreditação hospitalar passou a ser vista como elemento estratégico para desencadear e apoiar iniciativas de qualidade nos serviços, mas “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Ambas parecem importantes e a primeira existiria pela segunda. Mas o apelo crescente pela ‘acreditação pela acreditação’, e não pela ‘acreditação pela qualidade’, vem dando margem ao mau uso de algo muito bom.
A acreditação cada vez mais começa a orientar a prática em diversos hospitais brasileiros e, neste cenário, vem crescendo a necessidade e a procura por um profissional médico que auxilie nos processos, e muitos têm usado “hospitalista” para genericamente defini-lo. Nos EUA, hospitalistas em muito têm contribuído na acreditação hospitalar, mas cabe reforçar que o modelo de Medicina Hospitalar tem características bem peculiares, a partir do que se rompe pelo menos parcialmente com a forma tradicional de assistência nas enfermarias, podendo servir de apoio para o modelo tradicional – desde que de fato exista.
Hoje recebi por e-mail um edital de concurso seletivo para médico “hospitalista”, onde explicam como deverá atuar o profissional:
- Atendendo e registrando todas as intercorrências clínicas que ocorram durante o seu período de trabalho;
- Realizando procedimentos médicos invasivos ou não que se façam necessários, desde que sob exclusiva e expressa solicitação do médico assistente do paciente, salvo em emergências.
- Prescrevendo os pacientes quando os médicos assistentes não puderem. Esta prescrição deverá sempre ser consensuada e comunicada ao médico assistente do paciente, salvo quando seja impraticável.

Nunca me esqueço do que escutei de um gestor médico no ano passado: “preciso de médicos que “quebrem o galho” nas intercorrências, garantam o prontuário e dêem conta desta papelada e burocracia cada vez mais freqüente nos hospitais”.
Assisto com preocupação este movimento, temo que os custos possam disparar e quero aqui incitar o debate sobre as adaptações, necessárias ou não, naquilo que importamos como alternativas para melhorar a assistência à saúde em nosso meio.
Preocupa-me a possibilidade de que reproduzamos algo semelhante ao que ocorre nas emergências pelo Brasil e com os emergencistas e socorristas. Emergências são setores essenciais, embora cheios de problemas. Os médicos são considerados indispensáveis nelas, mas não estão nada satisfeitos. Não há suficiente capacidade de retenção de bons profissionais. Entram nesta os mais novos e partem para qualquer outra na primeira oportunidade. A inexperiência e o descompromisso preponderam, mas poucos incentivos são oferecidos para alteração deste panorama sombrio. Tenho medo de que algo parecido ocorra em nosso meio com a Medicina Hospitalar. Encontrar médicos que aceitem “preencher papéis”, com a natalidade médica vigente e crescente, não será difícil.
Também penso que assim não avançaremos na questão do trabalho em equipe, da minimização de hierarquias e da uniformização de condutas, importantes com ou sem o modelo com hospitalistas.
Opinião de Guilherme Barcellos
« Voltar
Comentários
Por: Guilherme Brauner Barcellos em 11/07/2010.
Discutindo esta questão com James Newman, presidente da Pan American Society of Hospitalists, ele imediatamente disparou: isto não necessariamente é ruim, pelo contrário. Mas é outra coisa. Este modelo pode ser implementado, em locais com ou sem hospitalistas, mas quem atua desta forma, pelo menos nos EUA, são "mid-level practitioners - nurse practitioners or physician assistants". 
Envie o seu comentário preenchendo os campos abaixo: