Uma comparação grotesca, porém cabível:
O único modo, e talvez a última chance, de salvar a vida daquele paciente seria amputando a sua perna.
A troca de um membro pela vida – exclamou o doutorando – assim como uma lagartixa quando acuada por um predador...
Certa vez fui comprar um livro numa dessas grandes livrarias. A balconista, ao me atender, pediu o meu cartão de crédito e a minha identidade. Dei, por engano, o cartão do plano de saúde em vez do de crédito. Ela logo percebeu o erro e educadamente me alertou do fato. Pedi desculpas, ao que a moça simpaticamente completou:
-Tudo bem, errar é humano!
Não perdi a oportunidade de fazer uma brincadeira:
-Mesmo sendo médico?
Para a minha completa surpresa, a moça ficou atordoada.
-Mas você é médico! Então não deveria errar!
Será que ela nunca teria aventado para aquela possibilidade?
Normalmente eu consideraria o diálogo anterior irrelevante e insípido, mas ele gerou uma série de reflexões em minha mente. O primeiro pensamento foi, na verdade, um pedido aos céus para que ela nunca fosse minha paciente, pois sou falível. Não gostaria de tratar de alguém assim tão intolerante. Mas o que veio depois foi a semente deste livro.
Não era a primeira vez que eu percebia essa cobrança nas pessoas que se esquecem do fato de nós, os médicos, sermos humanos. Será que ela ocultava tal dado por pura conveniência, ou toda aquela reação era fruto de nossa própria hipocrisia enquanto médicos?
Quantas vezes ouvi indagações semelhantes a esta: - Hoje eu tenho um importante compromisso, mas entrei em contato com a minha irmã, que está com diarreia. Desenvolverei os mesmo sintomas?
Respondo, de forma bem-humorada, dizendo que a irmã dele era a terceira do dia que atendera por diarreia. Não podemos ser negligentes com a higiene, mas se a doença passasse de uma pessoa para a outra assim tão facilmente, eu teria que trabalhar sentado num vaso sanitário!
Será que este fulano acha que, por ser médico, eu sou imune? Muito pelo contrário! Se ficar doente, ainda sofro o risco de infecções pela flora hospitalar. Imagine uma moléstia causada por alguma daquelas bactérias que só morrem a marteladas! Mas parece que o impulso inicial (irracional) exceto a consternação é: Médico também fica doente?
Surpreendente! O médico fica doente! Isso para não falar de quando é suspeito de metralhar a plateia num cinema ou de abusar de adolescentes sedados, por exemplo.
É evidente que tais acontecimentos estão muito distantes do normal ou do aceitável, mas a profissão dos autores destes delitos amplifica nossa indignação. Por quê? Resquício da época em que “doença-pecado” e “médico-sacerdote” eram quase considerados sinônimos?
Outra vez, ao ser questionado por um paciente quanto à demora no atendimento em um hospital público, expliquei que naquele dia a demanda vinha muito acima do normal. Estávamos fazendo o possível. Ele questionou, indagando se não poderíamos ser mais rápidos. Eu disse que já estávamos no limite da segurança. Um pequeno acréscimo na agilidade do atendimento aumentaria em muito as nossas chances de errar, e as vítimas poderiam ser eles mesmos. Pedi paciência e brinquei dizendo que desde manhã não tínhamos tido tempo nem para ir ao banheiro. A sua resposta, muito dura, foi:
-Se precisa ir ao banheiro, não deveria ter escolhido esta profissão!
Por acreditar que presto um serviço de alta qualidade, comumente fico frustrado quando não sou bem atendido por qualquer um que seja. É muito difícil não fazer comparações. O paciente tem o mesmo direito de ser exigente. E não deve ser nada fácil ficar esperando, muito, quando se sente náuseas ou dores. Mas não precisava ter dito isto. Não somos super-homens.
E você pensa que isto só acontece em hospital público?
Trabalhei num hospital privado de primeira linha. Nele, mensalmente, era enviado um relatório aos plantonistas com as queixas e sugestões advindas do serviço de atendimento ao cliente.
Eu tinha o hábito de ler as reclamações. A meu ver, algumas queixas eram totalmente pertinentes. Outras evidenciavam, claramente, uma falta de conhecimento sobre o médico e a sua vida. Eu poderia citar várias delas, mas colocarei aqui a primeira que me veio à mente. Era mais ou menos assim:
- Fui atendida neste hospital por causa de uma dor muito forte nas costas. Apesar de aliviar a minha dor e de ter feito o diagnóstico correto de cólica renal, me incomodou o fato de o médico estar com cara de sono, todo amassado e com o cabelo despenteado. Senti-me desrespeitada. Horário do atendimento: 04h30min.
A apresentação do médico é fundamental. Mas neste caso não era nem de longe a prioridade. Calcula-se que até 25% da população possa ter uma crise de cólica renal na vida. Se você já foi um desses azarados, deve se lembrar da intensidade da dor. Dizem que ela é pior do que a dor do parto.
Quando acordaram o colega às quatro da manhã, dizendo que um paciente com provável cólica renal tinha chegado, ele saiu correndo para aliviar o sofrimento e não para retocar sua maquiagem. Esta é uma das razões por que em muitos locais os plantonistas já trabalham de uniformes-pijamas.
Esta pessoa provavelmente não ficou frustrada ao descobrir que aquele profissional deitava sem aquelas redinhas de cabelo mas, sim, ao perceber que ele dormia durante o plantão. O plantonista estaria “dormindo em serviço”, fato este comprovado pela sua cara!
Pode causar surpresa, mas nós dormimos no plantão. Por quê?
Primeiro, porque também somos escravos dos nossos relógios biológicos e muitas vezes não chega nenhum paciente de madrugada. Segundo porque, em geral, trabalharemos normalmente no dia seguinte. E nós também ficamos amassados e despenteados quando acordamos.
Quanto tempo você levaria para se desamassar e trocar de roupa, caso fosse acordado às quatro da matina? Preferiria esperar todo este tempo com uma das piores dores que o ser humano conhece, para depois ser atendido por alguém engomado?
Talvez você esteja dizendo: -Ah, espera aí! Não somos tão radicais assim! É uma exceção!
Concordo. Mas imagine que você vá a um pronto-socorro com alguma queixa (que não seja emergencial ou dolorosa) e o médico demore um pouco para atendê-lo. Se esta demora (suponhamos que, de cinco minutos) ocorrer porque o médico estava terminando de almoçar...